Desafios da Avaliação na Implantação das DCNs

Exercício importante: saber que é possível 
ensinar e aprender de outras formas

O prof. Rinaldo Henrique Aguilar da Silva, diretor de Ensino, Pesquisa e Extensão da Faculdade de Ciências Médicas de São José dos Campos-Humanitas (Grupo Suprema), relembrou ao abrir sua exposição Desafios da Avaliação de Aprendizagem na Implantação das DCNs nos cursos de Odontologia, durante as 52ª Reunião da Abeno, que passada mais de uma década das Diretrizes há uma série de dificuldades que apontam para a incompreensão por parte de docentes e gestores sobre as necessidades de modificações constantes, além de reconhecer que as DCNs precisam fazer parte da construção coletiva.

Dentro deste aspecto – destacou – há 5 pontos que precisam ser abordados: 1) Inadequação dos projetos pedagógicos; 2) Referenciais, filosóficos e epistemológicos; 3) Formação interprofissional; 4) Método da aprendizagem baseada em problemas; 5) Processo ativo.

Os 5 pontos

1) Quando se vai do saber aparente para um saber real? De um saber aparente que crê e ostenta saber tudo de um saber real que quanto mais real mais pergunta sobre o que faz e elabora. Geralmente os projetos pedagógicos são sistematizados por um grupo de pessoas que se apropriam de um “pseudo conhecimento pedagógico” para fazê-los. Os projetos pedagógicos, mesmo estando disponíveis no site, muitas vezes não são incorporados na cabeça de alunos e professores. Todos devem partilhar da proposta do projeto pedagógico e partilhar isso com todos.

Falta domínio das questões filosóficas e epistemológicas que sustentam as nossas escolhas. Na maioria das vezes os professores não conhecem por completo o curso que as escolas oferecem. Muitos projetos pedagógicos hoje são colchas de retalhos.

Nas escolas inovadoras a construção é partilhada, contínua, com espaços democráticos para a construção dialogada das ações. É preciso reconhecer aqueles que já avançaram.

2) A diversidade destes referenciais adotados pelas escolas as torna únicas. Existe um distanciamento de um currículo efetivo e o real, vendendo o currículo de uma forma e entregando outro. Nós estamos comprometidos em oferecer ao aluno o que realmente dissemos que consta no projeto pedagógico? É preciso efetivar o que é a Odontologia no Brasil e o que o mercado de trabalho espera.

Muitas escolas retiraram dos docentes a responsabilidade e o dever de realizar a proposição curricular. Se por um lado é um avanço a criação de grupos de construção curricular, porque possibilita uma construção coletiva, ao longo do tempo muitos grupos se tornam esvaziados e perdemos os grandes ganhos que são os de conhecer uns aos outros e conhecer o próprio curso.

A pergunta é: onde está a marca de cada docente na construção curricular do curso? O trabalho docente reside no ato de propor e de ensinar, indo além da mera consulta e fluir da ideia ao ato como alguém que serve para alcançar o estudante. Temos receio de dar poderes docentes aos estudantes.

3) Existe uma grande potencialidade de formar juntos profissionais que irão trabalhar juntos. Para que se faça adequadamente a interprofissionalidade temos que garantir a estratificação da competência em comuns, colaborativas e específicas. Neste sentido há que se garantir momentos específicos de cada curso invertendo a atual lógica de oferecer o mesmo a todos. Na proposta integrativa é importante entender que não é preciso dar o mesmo conteúdo a todos. Para trabalhar a interprofissionalidade é preciso ter referencial teórico. Juntos podem ir à atenção primária da saúde, por exemplo, encontrando as diferenças e semelhanças.

4) Ainda existe uma extrema confusão sobre o que de fato é PBL (ensino baseado em problema) e problematização. A faculdade de Medicina de Marília foi a primeira a trazer este método em 9 passos. PBL é um método testado e comprovado cientificamente. Variações e adaptações das instituições não devem ultrapassar a metodologia aplicada. A problematização é feita através da reflexão da proposta de trabalho. TBL também tem uma sistematização e metodologia específica e deve ser aplicado baseado nesta metodologia.

Não sejamos contra o método. Temos que buscar mais organização na apresentação dos conteúdos, mesmo que venham da prática real vivida. Retomar a construção de esquemas, de mapas conceituais que demonstrem a interligação dos conceitos apresentados. Somente assim as ferramentas são suficientes para assimilar e acomodar a aprendizagem.

(5) O processo avaliativo precisa ser modificado. Toda avaliação é um produto do que    é avaliado pelas esfera cognitiva de quem avalia. A nota prende o professor e o aluno. É preciso de uma nova perspectiva que traz um conceito de realidade social e política. Nesta dimensão, avaliar é dinamizar oportunidades de ação-reflexão, num acompanhamento permanente do professor que motivará o aluno a novas questões a partir de respostas formuladas. Os bons alunos são os alunos questionadores, os bons perguntadores.

“Neste caso – prossegue o prof. Rinaldo- a avaliação será da aprendizagem do aluno, do ponto de vista educacional, institucional? Será feito um mix de todas estas avaliações nesta apresentação.”

Ele destaca que “para ser professor é preciso reconhecer que há Diretrizes Curriculares Nacionais que precisam ser implantadas nas Instituições e para isso é necessário olhar seu próprio currículo pedagógico e analisar o que deve ser feito para realizar estas modificações para adequação das DCNs”.

Processo é sofrido - “Muitas vezes vivenciar os processos educacionais é sofrido para docentes e estudantes, afirmou na conferência, acrescentando que “a relação entre o estudante” e o professor, hoje, sofre alterações e é preciso ver que ao realizar o diagnóstico situacional, deve-se mostrar a necessidade de fazer estas modificações e que alunos e pais  enxergam as atividades lúdicas, laboratoriais e experimentações como uma forma de ‘matar o tempo’, e não ensinar dentro do conceito ‘estou pagando’. Um exercício importante é mostrar que é possível ensinar e aprender de outras formas”, ressaltou em sua explanação.

Para que serve a avaliação? Ela é algo processual. Instrumento de proposição processual. É possível ter um controle sobre a avaliação constituindo uma equipe que avalia a proposta cognitiva do conteúdo. Essa mudança de paradigma traz uma questão fundamental: o que é realmente ensinar e avaliar.

A busca do conhecimento do SER professor pode se tornar um instrumento especial que permite abrir possibilidades para o ato de ensinar continuamente. Nós não estamos professores. Nós somos professores.

Perguntas dos participantes e as respostas
do prof. Rinaldo após sua apresentação

A Conferência Desafios da Avaliação de Aprendizagem na Implantação das DCNs nos Cursos de Odontologia fez parte da programação da 52ª- Reunião da Abeno, em Juiz de Fora (Suprema), no mês de julho.

A relatoria é de Viviane Maia Barreto de Oliveira

1) Quais são as metodologias ativas aplicadas em suas aulas?no grupo Suprema?

PBL do grupo suprema: alunos divididos em grupos de 10 a 12 alunos e os tutores (professores) abrem o caso na segunda-feira. Durante a semana têm tempo livre para fazer as atividades, no laboratório tem sessão de apoio e na quinta e sexta fecham o PBL, com uma conferência sobre o tema.

Problematização: grupos de alunos que recebem tarefas que são desenvolvidas ao longo do semestre de acordo com o que foi preconizado. A cada 2 ou 3 semanas os alunos se encontram em pequenos grupos e explicam o que vivenciaram. Criam os objetivos, o que conhecem e não conhecem e depois buscam respostas e aplicam na comunidade.

TBL: tema previamente dado para estudar, depois eles respondem e imediatamente são dadas as respostas e o professor coloca os temas mais necessários através de conferência.

2) Como trabalhar essas competências?

Competência é circunstancial. Precisa unir a capacidade motora, afetiva e psicomotora para avaliação do desempenho. Listar coisas que o aluno precisa fazer naquela atividade para poder separar nas 3 vertentes da competência.

3) Qual a receita para implementar estas mudanças?

Para fazer essas modificações é preciso trocar informações com outras instituições. Além disso é preciso saber procurar bons pares entre os professores para iniciar as mudanças. O caminho da gestão é importante e precisam apoiar estas mudanças. A Abeno é uma instituição importante para apoiar as mudanças. Aos gestores: Invistam em GENTE. O investimento em pessoas é importante.

4) Como repensar a formação do professor em Odontologia pois os cursos de pós-graduação não trabalham sobre a formação do professor.

5) Qual a sua visão da pós-graduação?

Os cursos não formam professores e sim pesquisadores. Um dos pilares das DCNs é a educação em Saúde. Ser professor é estudar, buscar conhecimento. O professor deve estar em educação permanente. As instituições podem ter núcleos para educação continuada, com propostas a serem abordadas em função da necessidade de cada curso. Além disso a educação permanente deve ser uma proposta de instrumento de formação docente.

 

 

29-08-2017